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24 de Janeiro de 2019
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    Rospide Neto viveu o auge da ditadura e o processo de redemocratização

    O advogado Rodolfo Rospide Neto (26/11/1938), natural de Iraí/RS, iniciou sua trajetória política como vereador na cidade de Três de Maio, entre 1962 e 1970, pelo antigo PTB. Deputado estadual por quatro mandatos pelo MDB/PMDB (de 1971 a 86), foi líder da oposição e líder partidário na Casa, além de presidir várias comissões e CPIs. Também alcançou o cargo máximo de Presidente do Legislativo, embora durante um curto período de tempo, em 1982, em uma das disputas políticas internas mais complicadas já registradas - ganhou no voto e perdeu na tapetão para o deputado Airton Vargas (PDS), que completou a gestão anual, a partir de maio daquele ano. Foi, também, Superintendente Geral da AL, Prêmio Springer de Economia (em 1976) e Secretário Geral do PMDB. Viveu na Casa três momentos distintos: o auge da ditadura militar, o período de abertura e o início do processo de redemocratização.

    Agência - O senhor viveu na Assembléia um período rico em termos de debate político, porém, com ameaças à liberdade de expressão. Como o senhor analisa, hoje, aquele período?

    Rospide Neto - Foi um período muito difícil porque a sombra da ditadura garroteava não apenas a liberdade do povo mas também dos parlamentares. Éramos limitados em nossos pronunciamentos, posições e denúncias. Tínhamos que ser muito comedidos, senão sofríamos represálias e até a cassação do mandato. No entanto, foi um tempo muito rico, onde os parlamentares se destacam por suas posições ideológicas e partidárias. Éramos os democratas que lutavam contra a ditadura implantada no País a partir do golpe militar de 1964. Todos estávamos no MDB, enquanto aqueles que defendiam a ditadura e o Governo estavam na Arena. O debate era muito acirrado, as posições eram muito claras. Nós tínhamos um discurso que representava o anseio do povo, éramos a voz do povo que não podia se manifestar, não podia fazer reuniões públicas nem se manifestar livremente. Mas, na tribuna do Parlamento, era diferente: nos manifestávamos livremente. Eram os deputados da oposição que clamavam por liberdade, que lutavam contra as áreas de segurança nacional que não tinham o direito de eleger seus prefeitos, que constituíam a voz dos injustiçados e dos perseguidos políticos. O Parlamento vivia um rico debate porque lutávamos por um ideal, muitas vezes os debates políticos duravam toda a tarde, às vezes a semana inteira. Como o Parlamento era o único local onde podíamos nos expressar livremente, convidávamos sociólogos e cientistas políticos para analisarem o quadro nacional, já que não podiam fazê-lo fora daqui.

    Agência - Como era a relação entre a oposição e as instâncias governamentais na época?

    Rospide Neto - Era um período diferente, o debate na Assembléia era eminentemente político, não havia espaço para o papel legislativo. Durante 16 anos, fui uma única vez ao palácio Piratini, a convite do governador Guazelli. Em secretarias de Estado não íamos, não porque não havia clima, mas porque simplesmente não éramos atendidos. Recomendação de deputado não existia. Não recomendávamos nada, enviar uma carta de recomendação de um deputado de oposição era um pedido para não ser atendido. Às pessoas que nos procuravam para alguma ajuda ou emprego, explicávamos para procurar o pessoal da Arena, do Governo. Neste período, as galerias se enchiam de gente, o pessoal vinha da rua para assistir aos debates, que muitas vezes eram acalorados e atraíam até os funcionários, que desciam dos gabinetes para assistir. E havia apenas as caixinhas de som para transmitir o áudio dos debates. O pessoal era atraído pelas discussões que aconteciam na Tribuna e no Plenário. Os debates eram mais acalorados.

    Agência - O senhor participou de algumas CPIs na Casa, entre elas a que debateu o papel do Dops. Lembre-nos de alguns fatos que lhe marcaram daquela investigação.

    Rospide Neto - Um dos principais momentos que vivi aqui foi na CPI do Dops, criada para investigar o "caso Arébalo", ou seja, as circunstâncias da morte do jovem filho da empregada do delegado do Dops na época, Pedro Seelig, em 1973. O delegado Seelig mandou prender o jovem , filho de sua empregada para dar uma correção nele, porque, segundo consta, ele estaria cometendo alguns deslizes. Mas não comunicou isso na delegacia. Então, o jovem ficou lá, os policiais não sabiam da situação e o torturaram, deram um caldo no guri (enfiar a cabeça da vítima num tonel cheio de água). Exageraram na dose e mataram o rapaz por asfixia. Aquilo deu um ano de manchete. Provou que dentro do Dops ocorriam torturas, principalmente contra presos políticos, que quem caísse lá estava fadado a sofrer humilhações e torturas. Esse rapaz acabou pagando uma conta que não devia, por engano de subalternos do Pedro Seelig. Lembro, também, que na legislatura anterior houve o caso das mãos amarradas, o assassinato do sargento Raimundo, jogado no Guaíba com as mãos amarradas após ser morto. O corpo amanheceu boiando...

    Agência - Este fato demonstra que os parlamentares da época contribuíram muito para o fim do autoritarismo.

    Rospide Neto - Não tenha dúvida. Na época, a ditadura não admitia que alguém se insurgisse contra os atos governamentais. A perseguição existia. Hoje, se soubesse o que sei sobre a época, capaz que eu pediria uma CPI!. Fiz na época na coragem, no arroubo da juventude, sem saber do perigo que corria. A pressão era enorme. Tanto que o Pedro Américo Leal, um defensor intransigente da ditadura e da direita, chegou num determinado momento, me chamou e me disse: "Rospide, somos adversários, mas não quero teu mal. Acredito que 90% da polícia é boa e 10% não prestam. Tu, ao contrário, acha que 90% não prestam e apenas 10% é boa. Quero te dizer o seguinte: te cuida desses 10%. Quando tu fores para casa, cuida quem vai do teu lado, algum suspeito que possa estar próximo em algum carro ou caminhão, te cuida porque os caras querem te pegar! Vai ao governador e pede segurança de vida para ti e teus filhos. Pode acontecer alguma coisa que fuja ao controle do Governo. Não inventa de sair à noite que eles te preparam uma, e cuidado com mulher desconhecida que chega perto de ti, mesmo que seja maravilhosa, não olha!" Eu fui ao governador Amaral de Souza e pedi segurança. Fui atendido, principalmente para meus filhos, que eram pequenos. Numa das reuniões da CPI apareceu uma jovem muito bonita, veio dar apoio ao Pedro Seelig, dizendo que era estudante de inglês do colégio Americano e que veio em nome dos estudantes dar solidariedade ao delegado. Depois descobriram que era uma comissária da polícia.

    Agência - Em 1980 o MDB passa a se chamar PMDB. Como se deu esta transformação na Assembléia, no início do pluripartidarismo?

    Rospide Neto - Esta transformação foi muito importante porque na época pois o MDB tinha 33 deputados, éramos a bancada majoritária. O Brizola estava chegando e nós o convidamos para ingressar no PMDB. Mas ele veio determinado a criar seu partido, como de fato fez, não sem antes perder a sigla do PTB para a Ivete Vargas. Ele rasgou a sigla do PTB e criou o PDT. Então, a metade foi para o lado de Brizola e a outra metade ficou ao lado de Pedro Simon e permaneceu no PMDB.

    Agência -Fale-nos sobre sua eleição à Presidência da Assembléia, em 1982, e os problemas que ocorreram com aquela disputa?

    Rospide Neto - Foi um acontecimento muito interessante. Fui eleito presidente e o PDT, que era para me apoiar, segundo acordo que havíamos firmado, terminou na última hora não homologando meu nome. Mesmo assim, me elegi presidente, embora sem o número de votos suficientes porque não houve quórum no Plenário. A Arena contestou na justiça e, a cabo de uma lide de quatro meses, fui destituído do cargo e foi eleito o deputado Airton Vargas. Na época, isto me marcou principalmente porque não esperávamos que o PDT não cumprisse com o acordo estabelecido entre as lideranças.

    Agência - Hoje, o Senhor continua transitando na Assembléia Legislativa, e participa ativamente das reuniões com seu partido...

    Rospide Neto - Sempre fui homem de partido e costumo dizer que foi o advento da Democracia que me tirou do Parlamento, porque houve a estratificação da sociedade, veio o pluripartidarismo e aqueles deputados que se elegiam por determinados segmentos, ou, no meu caso, a coluna vertebral da minha trajetória era o partido. E, assim, após 20 anos, recebi um basta e me retirei da atividade parlamentar, mas não da atividade política, porque continuo atuando no partido. Fui secretário-geral do MDB e depois do PMDB durante muitos anos. Hoje continuo, como tesoureiro do partido. Como procuro sempre ajudar muito o partido, conseqüentemente tenho bom trânsito junto aos deputados.

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