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3 de Abril de 2020
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    “Fake News: A antiética na Informação” em debate na Assembleia Legislativa

    O Fórum Democrático da Assembleia Legislativa e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul promoveram, na noite dessa quarta-feira (27), o debate “Fake News: A antiética na Informação”. O evento integra as comemorações dos 75 anos do Sindjors, criado no dia 23 de setembro de 1942 por jornalistas, escritores e intelectuais que atuavam em jornais, revistas e editoras, inicialmente, para defender os interesses da categoria, mas logo se consolidando como uma das principais instituições gaúchas que atuam na defesa da democracia, cidadania e direitos humanos. A atividade reuniu, na mesma mesa, no Plenarinho da Assembleia, o jornalista Alexandre Elmi, o consultor em Direitos Humanos Marcos Rolim, a coordenadora da Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Vera Daisy Barcellos, e o presidente do Sindjor, Mílton Simas. Eles analisaram a proliferação de notícias falsas, que parecem ser verdadeiras. Mílton Simas iniciou agradecendo a parceria com o Parlamento para o debate do tema. “Fenômeno que tem se acentuado mais recentemente”, disse ele, lembrando caso ocorrido no México, quando do último terremoto. “Notícia que se espalhou pelas redes sociais e mídia em geral dizia que uma estudante, de nome Frida, estaria soterrada em escola que tinha vindo abaixo. Após grande mobilização dos socorristas, o governo informou oficialmente que não havia ninguém sob os escombros com aquele nome, até porque representantes da escola anunciaram que sequer existia uma aluna chamada Frida”, lembrou, exemplificando um caso de fake news (notícia falsa). Igualmente trouxe o episódio da recente eleição na Alemanha, que reconduziu a chanceler Angela Merkel a um quarto mandato à frente do governo. “Sobressaíram mais as fakes news do que sua vitória em si, prejudicando aqueles que buscavam notícias sérias e efetivas. Cabe aos jornalistas a defesa e a valorização da notícia verdadeira, ética e com qualidade, luta esta que deve ser iniciada na academia”, reforçou o presidente do Sindjors. O superintendente de Comunicação Social e Cultura da Assembleia, Marcelo Nepomuceno, deu as boas-vindas aos presentes e disse que representava, no ato, o presidente Edegar Pretto (PT). “Saudamos a todos e agradecemos a oportunidade de poder acolher este debate, tão significativo à sociedade, claro, mas em especial para nós, jornalistas”, citando que no Parlamento atuam, por certo, mais de cem profissionais, em diversos setores da Casa. “Dos 55 deputados, apenas em seis gabinetes não há assessor de comunicação”, adendou. Referiu que o encontro integrava as comemorações dos 75 anos do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS no Legislativo gaúcho, somando-se ao Grande Expediente do deputado Valdeci Oliveira (PT) e à exposição fotográfica sobre fotojornalismo na sala J.B. Scalco. Notícias doentes O jornalista e professor Alexandre Elmi disse que a informação é um direito, consagrado no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que trata da liberdade de expressão e de informação. “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”, leu ele. Significa, acrescentou, que este é um direito essencial, junto com outros de destaque, “e que, este cidadão, deve receber informações de qualidade, por mais que este conceito possa ser subjetivo. Lamentável é que isso, posto no papel, não representa a realidade. “É algo que precisaria ser garantido neste novo momento midiático, um novo contexto irreversível denominado era digital”, observou. Conforme ele, são algumas tendências detectadas do fenômeno a multiplicidade de fontes; a informação fragmentada, gratuita e remontada, sem a devida checagem pelo universo jornalístico, num momento em que todos são mídia; também a consolidação dos grandes oligopólios informativos, grandes marcas produtoras de notícias. “Estes grupos, de outra parte, cortam custos para se manterem, reduzindo pessoal e gerando perda de capacidade em produzir um bom jornalismo”, observou. Outra forte tendência, alertou, é a crescente polarização dos debates políticos-ideológicos, determinando impactos marcantes sobre o jornalismo. Quanto ao momento do jornalismo, Elmi disse que há, sim, crise, “como já aconteceu em outros momentos e como acontece com qualquer área. “A análise deve ser que tipo de crise é esta. É em relação às finanças dos grupos jornalísticos? Sobre um modelo de negócio? Ou em relação à percepção da sociedade quanto à importância do bom jornalismo? Neste sentido vejo que esta é a maior crise vivida”. Entende que há uma mudança de como funciona o jornalismo no Ocidente. “Antes, havia um pacto implícito de confiança, de crença, de que posso confiar no que estão me informando. Hoje, diante de tantas notícias, falsas ou não, que chegam de todos os lados, passa-se a acreditar em determinado viés, aquele que mais chega perto daquilo em que acredito, ou aceito”, comparou, apontando que a grande mídia, ou mídia de referência, acaba, em razão do seu poder, por chegar mais próximo do consumidor de informação, dizendo-se portadora da veracidade. “Na realidade, está em jogo a validação de uma perspectiva”, resumiu. Afirmou que as fake news não são algo novo. “Sempre existiram as notícias falsas. Atualmente, com mais clareza, podemos defini-las como fabricadas, inventadas e sofisticadas ”, destacou o doutorando em comunicação, informando que o Brasil é o segundo país que mais acredita nas notícias, segundo dados do Digital News Report 2017, do Instituto Reuters. Por fim, ao questionar sobre como podemos confiar na mídia atual, advertiu que a sociedade deve fazer seu papel na busca de um jornalismo de mais qualidade. “Afinal, somo nós quem clicamos, ou não, para que uma notícia seja disseminada”, lembrou, ressaltando que há um crescimento de consciência da necessidade de checagem dos fatos antes de espalhá-los. “Creio num novo comportamento de precaução”, disse Elmi, lembrando que as principais plataformas da internet, como facebook e google, já agem nesta direção, “do compromisso com a transparência dos fatos, numa alteração de conduta. De outra parte, deve melhorar em nós o amadurecimento do alerta pessoal, se aquela notícia é ou não verdade”. Referiu que a ONU já considera esta situação, das notícias falsas, um problema global, “mas que precisa ser combatido com cuidado, não igualando toda a imprensa”, advertindo: “é preciso combater as fake news e não o jornalismo”. Também frisou ser necessário separar fake news de notícias mal construídas. “As notícias estão doentes. Devemos tratá-las e melhorá-las para a preservação do bom jornalismo”. Coma cultural O jornalista, professor e consultor em Direitos Humanos, Marcos Rolim, parabenizou o Sindicato dos Jornalistas pela iniciativa em debater o tema. “Vivemos um contexto histórico muito favorável à proliferação de notícias enviesadas. E, evidente, a polarização das opiniões e condutas político-ideológicas contribuem para tanto, com as pessoas, em geral, tendo enorme dificuldade em visualizar este quadro. E fico surpreso como algumas destas pessoas se deixam aprisionar por determinadas tradições e posicionamentos. Há um embate em relação àquilo que a sociedade crê e a produção científica. Os brasileiros não buscam provas, dados, estatísticas. Acreditam e pronto”, analisou. O discurso político no Brasil, emendou, baseia-se nos sujeitos e não em provas. “Os discursos fortes e acalorados ofuscam estas provas”, considerou, classificando a questão como de ordem cultural: “há uma facilidade como determinadas falas, determinados discursos, são propalados e aceitos, sem evidências. A nossa sociedade está em coma cultural”, resumiu. O fenômeno das fake news é histórico, não só no Brasil, opinou, ressaltando que a reprodução de mentiras acompanha a humanidade. “Antes, eram protagonistas pequenos grupos, que disseminavam falsas informações entre si, algo que cresceu e tem a internet, atualmente, como principal propulsor”. Lembrou que os sites de fake news (citou alguns dos mais acessados no Brasil) são mantidos com muita propaganda e têm milhões de compartilhamentos. “Sim, notícia falsa também gera um bom ganho financeiro, com as pessoas reproduzindo sem ler e, por consequência, sem conferir. Se favorecem com isso os que constroem fatos e posições ideológicas”. Para ele, a produção de notícias sem base de veracidade é uma tendência da política brasileira, especialmente no atual contexto de acirramento de ânimos e posições. “As notícias construídas neste contexto favorecem a quem?”, provocou, afirmando: “as pessoas estão em bolhas isoladas, em razão desta divisão. Quando se encontram, há o natural atrito”, e alertou: “as discussões com ódio precedem os conflitos. E temo, neste quadro, as eleições de 2018”. Compromisso com a verdade A coordenadora da Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Vera Daisy Barcellos, comentou as manifestações dos representantes das bancadas dos partidos políticos com assento na Assembleia, quando do Grande Expediente em homenagem aos 75 anos do Sindjors, na tarde de terça-feira (26), quanto às referências à verdade e ética como basilares na informação. Citou artigo acadêmico, de 2011, publicado na revista Verso e Reverso, na Unisinos, que tratou do tema A verdade no jornalismo: relações entre a prática e o discurso, centrado na reflexão em como o jornalismo constrói estratégias discursivas que criam efeitos de verdade na leitura dos fatos e nos relatos dos acontecimentos mundiais. “Diz o texto que o discursos jornalístico se enuncia como essencialmente verdadeiro, embora constituído pela articulação de um conjunto de práticas, regras e valores que condicionam sua construção discursiva. Entendi esta análise como uma síntese necessária ao debate desta noite”, ponderou. Mencionando a chamada do encontro: o direito da informação como um direito humano, Vera disse que acredita na comunicação como um direito humano, universal e indissociável de todos os demais direitos fundamentais. “Creio, sim, e por isso lamento que, em pleno século 21, comunidades como a Restinga, com dezenas de milhares de pessoas, ainda estejam à margem das informações acerca de mecanismos de melhoria social. Isso mostra que estão sem informação e sem voz, ninguém os ouve. Que se dê voz a estas coletividades, mesmo que isso passe pelo rompimento do sistema de uma mídia hegemônica e usurpadora dos privilégios das concessões públicas, de posse de novas tecnologias para benefício próprio”, sublinhou. Trouxe, também, manifestação do jornalista e diretor de TV, Gabriel Priolli, estudioso dos meios de comunicação, acerca da falsa notícia da menina soterrada no terremoto do México. “Conforme ele, o fato expõe a tradição do jornalismo em sacrificar a verdade em favor de audiência, fenômeno que precede a internet”. Ao final, alertou para a necessidade, por parte dos estudantes, de lerem, “e decorarem”, o Código de Ética da Fenaj, em especial seu artigo 2º, inciso 1º: a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independente da linha política de seus proprietários e diretores, ou da natureza econômica das suas empresas. Já o artigo 4º afirma que o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos. “Pensemos nisso para o fortalecimento das bases de formação dos jornalistas, tanto na academia como no dia a dia”, sugeriu. Ao final, integrantes da plateia, alunos e professores na área da comunicação, fizeram questionamentos aos palestrantes. © Agência de Notícias
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